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15 out Minha jornada à PSK 1 da Scrum.org

Estar isolado durante a pandemia de 2020 tem sido muito difícil, principalmente pra mim que tenho tantos amigos e gosto tanto de conversar com pessoas. Gosto de ter uma boa desculpa para uma boa conversa e um cafezinho. Então, como forma de contornar esta frustração do “encarceramento”, decidi que faria um bom uso deste período, estudando e evoluindo em áreas que até então eu não havia me aprofundado tanto quanto gostaria. Como falamos no Brasil, fazer do limão uma limonada (ou uma caipirinha, que é bem melhor!).

Em junho deste ano comecei a me dedicar ao estudo de metodologias ágeis, em especial ao Scrum. Não vou descrever todos os passos de todas as certificações que obtive (já são 8 até agora da Scrum.org, entre várias outras), pois pretendo fazer isso no final no ano, abordando a jornada completa, que serão 9 no total. Neste pequeno artigo vou falar objetivamente da PSK 1 (Professional Scrum with Kanban 1) e dos pré-requisitos dela.

A motivação de escrever surgiu depois que compartilhei no LinkedIn minha aprovação na prova, e muitos amigos e profissionais da área me contactaram pedindo dicas e orientações de estudo. Enfim, espero que este relato possa ser útil, esclarecedor e principalmente encorajador.

É importante dizer que escrevo baseado na minha experiência e visão do processo todo. Acredito também que cada pessoa tenha uma dinâmica própria de estudo e aprendizado, então, lembre-se que esta é a minha caminhada, e que o que escrevo aqui pode ou não ser adequado a você e à sua caminhada. Faça ponderações, estabeleça uma cadência e inspecione e adapte seu processo constantemente.

Para começar, é muito importante entender que as provas da Scrum.org têm o conhecimento incremental. Então, ajuda muito se você seguir uma ordem de fazer as provas de acordo com a evolução do conteúdo exigido. Tem um artigo muito bom do André Gomes sobre esta questão, e sugiro muito que você leia neste link. A ordem que eu segui até agora nas provas foi esta: PSM 1 > PSPO 1 > SPS > PSM 2 > PAL 1 > PSD 1 > PSK 1 > PSU 1, tudo isso entre agosto e outubro de 2020.

Dica 1: Prepare-se e passe muito bem na PSM 1

Independente da sua área de atuação e caminhada nas certificações da Scrum.org, faça a PSM 1 primeiro. Esta prova cobra todos os conceitos básicos do Scrum. Sem uma aprovação com um bom score (>90%) nesta prova, você vai ter dificuldade de avançar nas provas seguintes.

Para preparação dela, recomendo a leitura do Scrum Guide muitas vezes. Depois de ler, comece a segmentar e refletir sobre cada parte do guia, especialmente tentando fazer links com os pilares e valores do Scrum. Uma coisa que você aprende ao longo da caminhada é que o Scrum foi construído em bases muito sólidas, e tudo tem um propósito, uma razão de ser. Sempre que você tiver dúvidas sobre o que fazer, o que é certo ou errado no Scrum, volte sua atenção ao manifesto ágil, aos pilares e aos valores do Scrum. A sua resposta estará lá.

Em suma, posso afirmar categoricamente que é improvável que você passe na PSK 1 sem um bom score na PSM 1.

Dica 2: As provas são difíceis mesmo?

Sempre escutei pessoas falarem coisas do tipo: “essas provas são muito difíceis”, “as questões são cheias de pegadinhas”, etc. Bom, posso garantir que sim, as provas são muito difíceis e que não, não existem pegadinhas.

As provas são difíceis porque elas devem ter credibilidade no mercado. Quem tem aprovação nestas provas realmente entendeu e domina o conteúdo. Lendo muitos posts da Scrum.org, este ponto é muito claro: o compromisso que eles têm com a qualidade e a lisura do processo de avaliação. É exigido do candidato um entendimento real do Scrum, e não apenas uma boa capacidade de responder perguntas com base na sua capacidade de memorização do conteúdo. É claro que uma boa memória ajuda, mas não vai garantir sua aprovação. Entender é mais importante do que memorizar.

Outro ponto fundamental é ainda a questão do tempo. Na PSM 1, por exemplo, são 80 questões a serem respondidas em 60 minutos, ou seja, uma média de 45 segundos por questão. Por mais que você faça uma cola completa do conteúdo, vai ser muito difícil você acertar o mínimo de 85% para a aprovação. O time-box aqui é fundamental, pois isso, o conteúdo precisa estar na ponta da língua para todas as provas. No caso da PSK, são 45 questões em 60 minutos. Você pode pensar que é mais fácil por ter mais tempo por questão, mas não é nada disso. Na verdade, em comparação com a PSM 1, as questões são mais complexas e exigem mais reflexão e avaliação das alternativas, principalmente naquelas que envolvem aplicação e avaliação das métricas.

Não existem pegadinhas, as respostas são claras e muito objetivas. Mas, em algumas situações, a resposta pode não ser óbvia. Algumas questões pedem que você escolha a melhor alternativa, o que significa que todas podem estar certas, mas uma delas seja mais indicada. Nestes casos, normalmente é uma aplicação direta da teoria do Scrum ou do Kanban. Um exemplo disso é que “fluxo de valor” é menos específico que “fluxo de valor para os steakholders”.

Dica 3: preciso ser bom em inglês para passar?

Não precisa. O inglês utilizado nas provas é muito simples e utiliza a mesma terminologia utilizada no guia, nos livros, posts e vídeos do Scrum.org. Conheço pessoas que passaram com ótimos scores utilizando o Google Tradutor. Mas, se você tiver um bom nível de inglês, seu caminho será mais fácil. A dica que eu dou aqui é simples, e vale para a prova e para a carreira profissional: remova esse impedimento da sua vida, estude inglês.

Dica 4: preste atenção nos detalhes

Este ponto tem relação com a dica 3, preste muita atenção nos termos Should, Could/Can, Might, Must. No inglês, o MUST significa “deve obrigatoriamente”. Isso pode anular muitas alternativas em questões da prova, e facilitar a sua decisão sobre a opção correta. Isso porque o Scrum é leve e simples e por isso ele não costuma ser prescritivo. Neste sentido, poucas vezes a palavra MUST vai ser usada em um contexto correto, mas há excessões.

Exemplos:

  • limitar o WIP é obrigatório (MUST).
  • Ter um DoD (definition of “Done”) é obrigatório. (MUST).
  • O ideal é que o time de desenvolvimento tenha de 3 a 9 pessoas. (Recomendação, não é MUST).
  • o PO deve (MUST) usar “User Stories” para descrever os PBIs. Esta afirmação é FALSA porque usar “User Stories” não é uma obrigação; o PO pode usar a técnica que ele achar mais adequada, apesar de ser uma prática largamente utilizada.

Sempre que você ler a palavra MUST, desconfie, releia duas vezes.

Outra situação importante no Scrum são as responsabilidades que cada papel possui no framework. Entenda claramente o que é “accountable” e “responsible”. Aqui, se você colocar no google tradutor, verá que as palavras são traduzidas para o mesmo significado: “responsável” no português. Mas, não é exatamente isso. Por exemplo, o PO é “accountable” sobre o PB. Ou seja, ele até pode delegar o refinamento ou a ordenação de itens do PB para o time de desenvolvimento, mas a palavra final é sempre dele.

Dica 5: preciso mesmo ler todos os livros sugeridos?

Não precisa, é uma recomendação. Mas, posso garantir que se você ler, a sua jornada vai ser muito melhor. Como estou escrevendo sobre a PSK 1 (e da PSM 1 pois considero um pré-requisito), sugiro três leituras curtas e fundamentais:

  1. “Scrum – A pocket guide” de Gunther Verheyen: este livro é fundamental, pois coloca todos os elementos do Scrum muito bem explicados e explorados. Eu li (duas vezes até agora) no Kindle, na versão traduzida para o português pelo meu amigo Rodrigo Silva Pinto. Recomendadíssimo.
  2. Agile Project Management with Kanban” de Eric Brechner: este livro pode ser considerado um guia de como o Eric implementou o Kanban nos times do XBox da Microsoft. Vai dar a você uma ótima perspectiva da metodologia Kankan e do foco que o Kanban dá às métricas e à questão do WIP Limit e do fluxo de valor. É uma leitura muito legal e leve. Li no Kindle em inglês, pois até este momento, não localizei uma tradução.
  3. Actionable Agile Metrics For Predictability: An Introduction” de Daniel Vacanti : É um livro denso e muito técnico sobre métricas e gráficos, baseado no qual foi criada a certificação PSK. Coloco como obrigatória para a PSK a leitura dos capítulos 1 a 6, dando especial atenção aos capítulos 2, 3 e 6. Este eu consegui comprar o livro físico na Amazon, mas infelizmente é bem difícil de encontrar no Brasil. Está disponível no Kindle em inglês, não localizei tradução para português.

Dica 6: o que cai na prova e o que eu realmente preciso saber?

O conteúdo da prova é o conteúdo cobrado na PSM 1 + o conteúdo de Kankan. Basicamente isso. Não vou me ater ao conteúdo da PSM 1, pois isso daria outro artigo como este. Vou me ater objetivamente aqui àqueles conteúdos exclusivos da PSK 1:

  1. Compreenda que o Scrum continua imutável, nada no Scrum é descartado quando praticado com Kanban. Algumas coisas são impactadas no sentido de ficarem ainda melhores.
  2. Compreenda a diferença de um sistema empurrado e puxado e como o WIP Limit impacta nisso.
  3. Compreenda as 3 regras fundamentais do Kanban (MUST).
  4. Compreenda o mecanismo por trás do WIP Limit. Aqui vale lembrar: o WIP Limit é obrigatório! (MUST) Entenda também porque alterar o WIP Limit e em que casos isso pode/deve ou não ser feito. Entenda também que o WIP Limit pode ser excedido em determinadas situações, saiba claramente quando e porque.
  5. Compreenda que o Scrum “puro” já possui WIPs implícitos. Coloquei no plural pois existem vários mecanismos implícitos de WIP no Scrum, independentemente de usar o Kanban.
  6. Compreenda os 4 princípios do Kanban. Eles estão no guia do Scrum com Kanban.
  7. Compreenda claramente as 4 práticas básicas do Kanban. Elas estão no guia do Scrum com Kanban. (princípios e práticas são coisas diferentes!)
  8. Compreenda claramente as 4 métricas básicas do Kanban. Elas estão no guia do Scrum com Kanban. Existem outras métricas, mas não são cobradas na prova. As métricas do Scrum você deve saber, como por exemplo Velocity. Lembre-se que Velocity não é uma métrica de fluxo e não pode ser usada para comparar produtividade entre times diferentes.
  9. Entenda quais métricas são importantes em cada evento Scrum. Aqui chamo atenção para os conceitos de Leading indicator e Lagging indicator, eles são fundamentais para você compreender em que momento cada métrica é importante, e quais delas são fundamentais na inspeção e adaptação em cada evento. Atenção mais uma vez aos não falantes de inglês, pois as palavras Leading e Lagging quando traduzidas literalmente para o português podem passar um sentido não muito preciso sobre o que elas realmente querem dizer. Compreenda que Leading Indicator são métricas utilizadas ao longo da Sprint, em especial na daily (Work Item Age e WIP), mas que não fazem muito sentido depois que a Sprint encerra, ou na retrospectiva.
  10. Compreenda a Lei de Little e convença-se que ela não pode ser utilizada para prever o futuro: “No forecasts!!”. Olhe para a fórmula da Lei de Little, reflita sobre ela para entender as relações entre Cycle Time, Throughput e WIP, lembrando que neste caso são sempre médias. Pense em como reduzir o WIP Limit influencia no Cycle Time, e coisas deste tipo.
  11. Compreenda que Throughput é vazão, ou seja, uma quantidade de coisas que ocorrem ou que são realizadas em uma determinada faixa de tempo.
  12. Gráfico CFD: compreenda que tipo de informação pode ser extraída dele, o que ele representa e em que eventos do Scrum a inspeção dele é útil. Aprenda a leitura do CFD, o que cada comportamento do gráfico pode sugerir, quando as faixas (Cycle time, Throughput e WIP) estão paralelas, achatadas, crescentes, decrescentes, etc.
  13. Gráfico Cycle Time Scatterplot: este gráfico é importante na Sprint Retrospective, entenda porque. Importante ressaltar que ele mostra os itens do kanban, e não médias ou agrupamentos de dados. Entenda a relação dele com a SLE.
  14. Compreenda a SLE, como ela pode ser calculada e quem é responsável por ela. Lembre-se que a SLE é uma probabilidade e saiba como é uma SLE bem formatada: 85% para 10 dias, ou seja, é provável que 85% dos itens do kanban sejam feitos em 10 dias. Atenção: SLE não tem nenhuma relação com SLA.

Dica 7: onde encontro materiais na internet para leitura?

Eu li todos os posts recomendados no Scrum.org para esta certificação. Ressalto a importância de ler principalmente os posts relacionados com as métricas, pois no meu caso, esta foi a parte que eu tive mais dificuldade de absorver. Eu fiz resumos esquemáticos que me ajudaram muito.

Dica 8: simulados do Scrum.org ajudam?

Sim, mas não são suficientes. Posso garantir que as questões da prova são mais complexas do que aquelas dos simulados. Eu sempre faço os simulados exaustivamente até que esteja acertando 100% consistentemente (5 vezes seguidas). Preocupe-se não apenas em selecionar a resposta correta, mas entender claramente porque as outras alternativas estão erradas. Isso na prova normalmente entrega a resposta certa. Lembre-se que na dúvida, busque incoerências relacionadas aos valores e pilares do Scrum. E, sempre desconfie do MUST.

Dica 9: quando posso saber que estou pronto para fazer a prova PSK 1?

É muito provável que você se saia bem na prova quando você estiver dominando todo o conteúdo que eu listei na dica 6. Eu me preparei pontualmente para esta prova por aproximadamente 15 dias (entre trabalho e afazeres domésticos pandêmicos), sendo que dediquei muito tempo antes à leitura de artigos do blog da Scrum.org e aos livros que citei acima. Quando comecei a estudar, eu já havia lido os livros (do Gunther e do Eric). O livro do Daniel Vacanti foi uma fonte de consulta constante, principalmente sobre as métricas que eu listei, CFD e lei de little.

Dica 10: Vale a pena fazer os cursos oficiais da Scrum.org?

Se houver disponibilidade na sua cidade, ou se você tiver condições de viajar para fazer, faça. Durante a pandemia, eles estão dando estes cursos online, em dois dias. Eu fiz os cursos da PSM 2 e SPS e são cursos excelentes. Eles têm um padrão mundial e são constantemente melhorados. A minha percepção e entendimento do Scrum depois dos cursos foi outra, por isso, recomendo muito. Além disso, quem faz o curso ganha um voucher para fazer a prova. Se não for aprovado, tem uma nova tentativa. Após os cursos e com algum estudo e leitura, passei nas provas sem dificuldades. Me parece que ainda não temos o curso da PSK no Brasil, mas acredito que em breve deverá estar disponível.

É importante dizer que eu tenho 20 anos de experiência com desenvolvimento de software e boa parte deste tempo liderando times de desenvolvimento. Então, naturalmente, a minha experiência profissional facilitou bastante a minha caminhada. Se você lidera times ou trabalha em times que praticam agilidade (ou mesmo cascata), uma boa tática é tentar imaginar situações que você já vivenciou e pensar como seria se você aplicasse esta ou outra técnica, o que poderia ter ocorrido de forma diferente. Tente imaginar e refletir sobre os impactos que cada elemento do Scrum e do Kanban geram no processo e nas pessoas. Para a PSK, concentre-se muito na limitação do WIP. Este é o ponto central, e obrigatório. (MUST)

Encerro, portanto, dizendo que eu enxergo as provas de certificação como um checkpoint na jornada do conhecimento e não um valor em si. Um título abre portas, mas é só o conhecimento, a experiência e a melhoria contínua que te mantém de fato dentro da sala.

Bons estudos e boa sorte!

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